QUANDO NÚMEROS NÃO BASTAM: CONSIDERAÇÕES SOBRE A BANALIZAÇÃO DO QUANTITATIVO

Autores

DOI:

https://doi.org/10.14244/reveduc.v20i1.7085

Palavras-chave:

Pesquisa Quantitativa, Inferência Estatística, Metodologia Científica, Educação

Resumo

Este trabalho analisa criticamente a banalização do termo quantitativo na pesquisa em Educação, argumentando que a imprecisão conceitual no uso de categorias metodológicas compromete a validade epistemológica do conhecimento produzido. O objetivo é demonstrar que dados numéricos e estatísticas descritivas, isoladamente, não caracterizam uma pesquisa como quantitativa, sendo necessário o uso rigoroso de técnicas inferenciais e a clareza quanto ao alvo e aos limites da inferência. A abordagem é teórico-conceitual, com aporte em Bourdieu (2004), especialmente na noção de que os conceitos científicos são construções simbólicas em disputa no campo acadêmico, e em Creswell (2010), no que se refere à caracterização de pesquisas quantitativas com base em inferência amostral. À guisa de exemplificação, o texto articula dois núcleos analíticos complementares: (a) a análise discursiva de um diálogo real com um sistema de inteligência artificial generativa, que evidencia padrões de acomodação conceitual e reprodução de consensos metodológicos frágeis; e (b) a leitura crítica de dois artigos acadêmicos recentes, publicados em periódicos qualificados da área, que se autodenominam quali-quantitativos apesar de não apresentarem procedimentos inferenciais ou integração efetiva entre abordagens. A partir desses materiais, o texto diferencia estatística inferencial de inferência válida, discute os limites epistemológicos da generalização e questiona classificações metodológicas que associam automaticamente ausência de generalização populacional à impossibilidade de inferência. Conclui-se que o ensino de Metodologia deve resistir à legitimação superficial conferida por discursos estatísticos e tecnológicos, promovendo uma reancoragem conceitual baseada em critérios explícitos, distinções rigorosas e responsabilidade epistemológica. Ao sustentar tais distinções, o estudo contribui para uma formação metodológica mais crítica e reflexiva, particularmente relevante diante do uso crescente de tecnologias de IA que tendem a reforçar ambiguidades já presentes na literatura educacional.

Biografia do Autor

Patrícia Campelo Costa Barcellos, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Professora associada na área de língua inglesa do Instituto de Letras e professora do Programa de Pós-Graduação em Informática na Educação (PPGIE) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Possui Doutorado em Informática na Educação pela UFRGS e Doutorado em Linguística Aplicada pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Durante o Doutorado na UFRGS, foi bolsista CAPES e realizou Doutorado Sanduíche (Bolsa PSDE - CAPES), na University of California, em Irvine (Califórnia, EUA). Foi professora convidada do curso de Especialização em Ensino de Línguas Estrangeiras: Contextos de Aprendizagem e Tecnologias na UNISINOS, em 2015, professora da Faculdade Dom Bosco de 2011 a 2013 e professora do NELE (Núcleo de Ensino de Línguas em Extensão), na UFRGS, de 2008 a 2012. Além disso, foi professora convidada do curso de Especialização em Ensino-Aprendizagem de Língua Inglesa do Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter) em 2010 e 2011 e trabalhou como professora substituta de língua inglesa na Graduação da UFRGS de 2008 a 2010. Durante o Mestrado em Linguística Aplicada, na UFRGS, atuou como bolsista CNPq. Na Graduação em Letras Licenciatura Português/Inglês (UFRGS) foi bolsista de iniciação científica FAPERGS (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul). Tem experiência na área de Linguística Aplicada e ambientes informatizados na educação, atuando principalmente nos seguintes temas: aprendizagem de língua estrangeira, teoria sociocultural, diálogo colaborativo e tecnologias aplicadas à educação.

Referências

Amorim, Liliane Barbosa; Mendes, Fernando; Macêdo, Ana Angélica Mathias. (2025). Percepção de professores de Biologia da Educação Profissional e Tecnológica sobre a Educação Inclusiva. Ciência & Educação, Bauru, v. 31, p. e25016. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1516-731320250016. Acesso em: 27 dez. 2025.

Bachelard, Gaston. (1996). A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto.

Bourdieu, Pierre. (2004). Science of science and reflexivity. Chicago: University of Chicago Press.

Creswell, John W. (2010). Projeto de pesquisa: métodos qualitativo, quantitativo e misto. Porto Alegre: Artmed.

Lira, Aliandra Cristina Mesomo; Bahls, Diego Paiva; Machado, Leandra Souza. (2024). Concepções de educação infantil em imagens: docência performática e ativismo pedagógico no Facebook. Revista Práxis Educacional, Vitória da Conquista, v. 20, n. 51, p. e12899. Disponível em: https://doi.org/10.22481/praxisedu.v20i51.12899. Acesso em: 17 jan. 2026.

Lüdke, Menga; André, Marli Eliza Dalmazo Afonso de. (2022). Pesquisa em Educação: abordagens qualitativas. Rio de Janeiro: EPU.

Mineiro, Ana Clara B. et al. (2022). Pesquisa qualitativa e quantitativa: imbricações, articulações e superações. Momento - Diálogos Em Educação, 31(03). Disponível em: https://doi.org/10.14295/momento.v31i03.14538. Acesso em: 13 jan. 2026.

Yin, Robert K. (2016). Pesquisa qualitativa: do início ao fim. Porto Alegre: Penso.

Publicado

01.06.2026

Como Citar

MAGALHÃES FOOHS, Marcelo; CAMPELO COSTA BARCELLOS, Patrícia. QUANDO NÚMEROS NÃO BASTAM: CONSIDERAÇÕES SOBRE A BANALIZAÇÃO DO QUANTITATIVO. Revista Eletrônica de Educação, [S. l.], v. 20, n. 1, p. e704503, 2026. DOI: 10.14244/reveduc.v20i1.7085. Disponível em: https://www.reveduc.ufscar.br/index.php/reveduc/article/view/7085. Acesso em: 26 jun. 2026.
##plugins.generic.dates.received## 2026-02-19
##plugins.generic.dates.accepted## 2026-03-22
##plugins.generic.dates.published## 2026-06-01

Artigos Semelhantes

Você também pode iniciar uma pesquisa avançada por similaridade para este artigo.