Suicídio.com: o último ato do espetáculo (Suicide.com: the last act of spectacle)

Marsiel Pacífico, Luiz Roberto Gomes

Resumo


Dialoguing with the theoretical intersection between central references of the Critical Theory of Society and the philosopher Guy Debord, through literature review and case studies, this article sought to discuss the theme of suicide.com. Although the term has been coined, it was done, generically, for suicide cases in which the author uses some digital resource to the act. Therefore, suicide.com shows its characteristics and forms of manifestation that differs between cases in which the suicides are encouraged and directed by websites and/or internet users where, in general, such practices are restricted to the forums. accompanied by the chats, having as a visual record eventual images of the process; creation of suicide groups where people meet in forums to talk about the subject and they create a collective death pact; or cases where the suicide makes the practice public in video and live, from the access of Internet users to the webcam. However, the proposed approach embraced a new understanding of the concept, which could be based on the following premises: a) the suicide, as a social phenomenon, is limited to the historical context and cultural factors of its time and space, therefore, the media is an inherent component of contemporary suicide practices; b) suicide.com, however, is not just the virtualized replication of traditional suicide; It is the result of the processes of public spectacularization of private life in virtual environments.

Resumo

Dialogando com a intersecção teórica entre referências centrais da Teoria Crítica da Sociedade e o filósofo Guy Debord, por meio de revisão bibliográfica e de estudos de caso, o presente artigo buscou discutir a temática do suicídio.com. Apesar de o termo já ter sido cunhado, o mesmo foi feito, genericamente, para casos de suicídio em que o autor utiliza algum meio digital para o ato. Assim sendo, o suicídio.com apresentou suas próprias características e formas de manifestação, que se diferem entre casos nos quais os suicidas são incentivados e orientados por sites e/ou usuários da internet onde, em geral, tais práticas ficam restritas aos fóruns, sendo acompanhadas pelos chats, tendo como forma de registro visual eventuais fotos do processo; criação de grupos suicidas onde as pessoas se encontram em fóruns sobre o assunto e criam um pacto de morte coletiva; ou casos em que o suicida torna a prática pública em vídeo e ao vivo, a partir do acesso dos internautas à webcam. Todavia, a propositura levantada abarcou uma nova compreensão do conceito, que pôde ser alicerçado nas seguintes premissas: a) o suicídio, enquanto fenômeno social, está circunscrito ao contexto histórico e aos fatores culturais de seu tempo e espaço, portanto, a mídia é um componente inerente às práticas contemporâneas de suicídio; b) o suicídio.com, porém, não é somente a replicação virtualizada do suicídio tradicional; é consequente dos processos de espetacularização pública da vida privada em ambientes virtuais.

Palavras-chave: Suicídio.com, Sociedade do espetáculo, Cibercultura, Suicídio.

Keywords: Suicide.com, Society of the spetacle, Cyberculture, Suicide.

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